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A cidade dialógica : Constituindo o direito à cidade a partir do diálogo em Paulo Freire

Dr. Marcelo Karloni

Universidade Federal de Alagoas

Campus Arapiraca

Arquitetura e urbanismo


Há uma definição de diálogo em Paulo Freire que defendo como sendo uma das mais poderosas ferramentas para o desmonte de estruturas autoritárias tanto na escala dos poderes constituídos como na escala micro-sociológica.

O diálogo para o nosso mestre Paulo Freire seria segundo o mesmo : “o encontro amoroso dos homens que, mediatizados pelo mundo, o “pronunciam”, isto é, o transformam , e , transformando-o , o humanizam para a humanização de todos

Nessa definição prenhe de verdade e beleza, por que a verdade pode ser sim bela e poética, pode-se , acredito eu, pensar na constituição de muitos direitos hoje negados ao povo brasileiro. Sobretudo ao povo que vive nas periferias das médias e grandes cidades no Brasil.

Segundo essa definição, o primeiro elemento definidor do diálogo é o encontro. Segundo Paulo Freire, encontro amoroso. Aqui se rompe, parece, uma barreira que prejudica a meu ver parte dos esforços até mesmo dos setores progressistas no Brasil, de perceber que a dialogicidade, a capacidade do diálogo, é constituída a partir de uma perspectiva solidária e não da reciprocidade.

Ora, ainda há certa distorção quando se assume que os esforços coletivos de luta por direitos são esforços de reciprocidade. Não que a reciprocidade não tenha seu lugar. Ela tem! No entanto, penso que a perspectiva que melhor apreende o valor e fortalece a luta de movimentos sociais espontâneos, é a solidariedade.

Por que? Por que a solidariedade pressupõe segundo a perspectiva que defendo, a necessidade de experimentar perdas. Perda do que é seu para ganho do que é de todos.

Observemos algumas das justificativas que surgem em muitas pesquisas, que inclusive já acompanhei de perto, levantadas para que os associados de variados movimentos não participem de suas reuniões por exemplo.

“ Trabalhei o dia todo, não dá pra participar hoje da reunião da associação” ; “ A reunião demora”; “ Eu vou a reunião, mas ninguém vai me ouvir”.

Essas falas estão presentes naquelas avaliações de participação nas assembleias de muitos movimentos e associações.

Essa dificuldadede em articular decisões coletivas, organizar pautas e mesmo gerir associações são sempre mobilizadas para explicar parte do custo tido como alto para que elas funcionem e não fiquem dependentes apenas da ação das suas lideranças.

Dependência essa que fatalmente finda por formar profissionais de direção e impedem a renovação das direções dos movimentos.

Participar requer perda. Do mesmo modo para que haja o encontro amoroso citado por Paulo, é preciso que haja “perda”.

Esforços coletivos que se assentem em reciprocidade tem tempo de validade porque a reciprocidade funda-se essencialmente na satisfação do interesse individual ainda que tenha o coletivo como meio.

Por isso Paulo Freire diz que frequentemente os técnicos associam o diálogo a “perda” de tempo. Essa visão tecnocrática é que explica também por que direitos como o direito à cidade, que tem na participação popular uma das suas maiores forças de implementação, a sua negação.

Não é tão incomum que em reuniões, audiências e sessões públicas que discutam por exemplo o plano diretor, as associações até compareçam mas que as decisões tomadas por técnicos, acadêmicos e “doutores” , comunicadas por vezes em uma linguagem cheias de termos sofisticados sejam tomadas pelo olhar de quem anda de carro próprio e não pelo olhar de quem espera horas num ponto de ônibus.

Obviamente, essa cidade será pensada , embora a etapa de participação tenha sido formalmente cumprida, pelo olhar do homem e mulher motorizados e não pelos usuários da cidade e pedestres, que inclusive em sua maoria são mulheres.

Dialogicidade é um imperativo portanto que situado adequadamente junto ao instituto da participação, diretriz do estatuto das cidades e pode-se dizer nesse sentido, um instrumento urbanístico sem o qual nenhum outro tem sentido, implica também nas possibilidades de emancipação dos trabalhadores das cidades brasileiras.

Ou seja, sem a prática da dialogicidade até mesmo o instituto da participação pode se verificar neutralizado em sua aplicação e convertido em apenas uma etapa formal da constituição do direito a cidade e de outros tantos.

Paulo Freire cita por fim algumas das justificativas para que a dialogicidade não seja levada a cabo por técnicos. Dirão os mesmos:

“ A dialogicidade é inviável”.

“ E o é na medida em que seus resultados são lentos, duvidosos e demorados”.

“ Não se justifica essa perda de tempo”.

“Entre a dialogicidade e antidialogicidade fiquemos com esta última, já que é mais rápida”.

A justificativa portanto que tem potencial para tornar o diálogo e a participação popular nulos e atribuir aos mesmos o caráter de perda de tempo, é a mesma que fundamenta a instalação de períodos de ameaça à democracia.

O técnico, seja qual for a formação ou função, caso não compreenda o papel do diálogo no levantamento das demandas dos trabalhadores no Brasil, pode sim se converter em fomentador de negação de direitos como o direito à cidade e reprodutor do autoritarismo como processo social.

A dialogicidade além de encontro amoroso é por sua vez, instrumento de luta pela democracia e pela constituição de direitos da classe trabalhadora brasileira.

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