
Isabella Walter
3 de mar. de 2026
BrCidades no Jornal GGN
Como a disputa por recursos naturais e a lógica extrativista impactam o território, atravessam as cidades e desafiam os fundamentos do planejamento urbano
Diz-se que, no Brasil, o ano começa depois do Carnaval. Mas, antes mesmo que janeiro chegasse ao fim, um episódio de grandes proporções geopolíticas ocupou o centro do noticiário: a invasão norte-americana à Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. A ação foi parte de uma operação iniciada meses antes, pelos EUA, que contou com ameaças constantes, ataques marítimos coordenados, presença naval na região e apreensão de petroleiros. Ainda assim, a escalada da ação realizada na madrugada de sábado surpreendeu a todos, principalmente os países latinoamericanos, que possui histórico de inúmeras intervenções americanas no seu território.
Apesar disso, parte significativa da mídia descreveu o episódio como “operação”, “campanha de pressão” ou “captura do presidente”. À primeira vista, essas expressões podem passar despercebidas, mas recorrem a uma linguagem asséptica que ignora o histórico de intervenções e suaviza a violência do acontecimento, como observa Adam Johnson em reportagem do Intercept. Essa disputa semântica não é trivial: as palavras moldam a forma como interpretamos o evento, delimitam suas causas e responsabilidades e influenciam aquilo que reconhecemos como conflito legítimo ou inevitável.
Romper com essa assepsia é o ponto de partida deste texto. A invasão é analisada aqui não como uma exceção no cenário internacional, um evento isolado, mas como parte de uma lógica que é estrutural do capitalismo: a apropriação e mercantilização da natureza e a disputa por territórios ricos em recursos naturais. O próprio presidente dos Estados Unidos, Donald Trump afirmou que o país ia assumir o controle das enormes reservas de petróleo da Venezuela e que empresas norte-americanas assumiram a produção, evidenciando a centralidade da apropriação de recursos naturais no conflito. Na atualidade, os recursos naturais seguem ocupando posição central no processo de acumulação, agora cada vez mais articulado às dinâmicas rentistas que marcam o nosso período. Sob novas formas, como concessões, commodities, mercado de carbono, a natureza é convertida socialmente em ativos econômicos e integrada às cadeias globais de valor.
O caso do Rio Tapajós, que estampou as manchetes do noticiário nesta semana, é mais um exemplo desse cenário de disputa em torno da apropriação de recursos naturais estratégicos. O decreto federal autorizava a realização de estudos técnicos para a concessão de trechos da hidrovia do Rio Tapajós à iniciativa privada, abrindo caminho para a transferência da gestão e da manutenção da navegabilidade ao setor empresarial. A proposta, contudo, gerou intensos protestos que alertaram para os riscos ecológicos em uma região sensível da Amazônia e para os impactos sobre povos indígenas e ribeirinhos. Diante da repercussão negativa e da pressão pública, o governo acabou revogando o decreto.
Isabella Walter é arquiteta e urbanista, doutoranda em desenvolvimento econômico pelo Instituto de Economia da Unicamp, militante do Movimento Pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e colaboradora da Rede BrCidades.
Texto na íntegra:https://jornalggn.com.br/artigos/a-cegueira-estrutural-do-urbanismo-por-isabella-walter/

