
Jorge Edson Santos, Dalva Angélica e Kelvyn Alves Rodrigues
4 de mai. de 2026
BrCidades na Carta Capital
Em meio às disputas urbanas, são as lideranças comunitárias que conectam o cotidiano das periferias às lutas estruturais pelo direito à cidade
Em contextos marcados por profundas desigualdades urbanas, o papel das lideranças comunitárias se impõe como um elemento central para compreender a dinâmica das cidades brasileiras. Mais do que uma dimensão simbólica, trata-se de reconhecer a atuação estratégica dessas lideranças na construção cotidiana dos territórios, especialmente nas periferias de Aracaju, capital de Sergipe, e de tantas outras regiões do país. A experiência acumulada no Movimento Organizado de Trabalhadoras e Trabalhadores Urbanos (MOTU), em diálogo com processos formativos e práticas territoriais, revela que a liderança comunitária não nasce pronta; é construída coletivamente, no cotidiano das lutas, na mediação de conflitos e, principalmente, na capacidade de organizar o povo para intervir na realidade. Mais do que representar demandas, liderar é criar condições para que a comunidade participe ativamente da definição de seus próprios rumos.
No campo urbano, a participação popular frequentemente aparece como princípio nos planos diretores, nas políticas públicas e nos discursos institucionais. No entanto, na prática, ela ainda é limitada, fragmentada ou meramente consultiva. A realidade dos territórios demonstra que participar exige organização. Não há participação efetiva sem base social estruturada, sem espaços de decisão coletiva e sem processos formativos contínuos. Como aponta Maria da Glória Gohn, os movimentos sociais têm papel fundamental na educação política da população, pois produzem saberes, constroem identidades coletivas e ampliam a capacidade de ação dos sujeitos no espaço público. Nesse sentido, a liderança comunitária atua como mediadora entre o cotidiano da população e os processos mais amplos de disputa por direitos.
A prática organizativa, como evidenciado nos processos formativos do MOTU, reforça que o trabalho de base é o elemento estruturante da ação popular. Reuniões, assembleias, visitas porta a porta e atividades comunitárias não são apenas instrumentos técnicos; são espaços de construção política. Saber organizar uma reunião, por exemplo, vai muito além de reunir pessoas em um mesmo espaço. Trata-se de definir objetivos claros, construir uma pauta, garantir a participação de todos, encaminhar decisões, distribuir responsabilidades, além de avaliar o que está sendo feito. Como indicam as experiências formativas, grande parte do êxito de uma reunião está na sua preparação e na capacidade de transformar debate em ação concreta. Essa dimensão organizativa dialoga diretamente com o que Ademar Bogo denomina de teoria da organização política: não há transformação social sem método, disciplina coletiva e clareza estratégica; a organização popular exige intencionalidade, continuidade e formação.
Jorge Edson Santos é Doutor em Geografia pelo Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal de Sergipe (PPGEO/UFS, 2026) e Coordenador Estadual do Movimento Organizado de Trabalhadoras e Trabalhadores Urbanos (MOTU) em Sergipe e Colaborador da Rede BrCidades.
Dalva Angélica é Engenheira Florestal pela (UFS 2014) e Coordenadora Estadual do MOTU em Sergipe.
Kelvyn Alves Rodrigues é Biólogo pela UFS e Coordenador Estadual do MOTU em Sergipe.
Texto na íntegra: https://www.cartacapital.com.br/blogs/br-cidades/a-centralidade-das-liderancas-comunitarias-na-disputa-pelas-cidades/

