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A demolição de um terreiro e o racismo que organiza as cidades brasileiras

Letícia Gomes de Sousa

20 de abr. de 2026

BrCidades na Carta Capital

O caso do Ilê Asé Odé Ibualamo evidencia como o Estado opera na destruição de territórios afro-brasileiros em nome do “progresso” urbano


No fim de 2022, a prefeitura de Carapicuíba (RMSP), sob gestão do prefeito Marcos Neves (2017–2024), ordenou a demolição do terreiro de candomblé Ilê Asé Odé Ibualamo, erguido há cerca de 30 anos pelo Babolorixá João Canavieiras, avô da Yalorixá Mãe Zana, mentora espiritual do espaço desde 1997. O abrigo sagrado completa três anos de desterritorialização sem previsão de nova sede adequada. A justificativa oficial de canalização do Córrego Cadaval para controle de enchentes e integração viária incluiu risco de desabamento, algo que só emergiu após o início das obras no entorno.


Longe de episódio isolado, o caso é emblemático da violência socioterritorial na qual se sobrepõem racismo ambiental, racismo religioso, aparelhamento político e a histórica negação do direito à cidade às populações negras e periferizadas. Sob discurso tecnicista, o Estado operou seletivamente, legitimando intervenções que sacrificaram territórios racializados em favor da valorização fundiária e da acumulação capitalista. Sem diálogo com a comunidade e sem reconhecimento da relevância simbólica do Ilê, o planejamento urbano atuou como instrumento de exclusão, definindo quais vidas, memórias e práticas culturais merecem existir na cidade.


O terreiro como território e o racismo como estrutura


O Ilê constituiu-se como um território de reprodução material, simbólica e espiritual da cultura afro-brasileira, articulando o sagrado à existência cotidiana. Como ocorre historicamente com os terreiros de matriz africana, era mais que espaço de culto, consistia em território aquilombado, oferecendo à comunidade: base política e social, suporte jurídico, apoio à saúde, à segurança alimentar e ao cuidado coletivo.


Conforme o Decreto nº 6.040/2007 do Governo Federal, povos tradicionais organizam seus territórios como condição essencial para a sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica. Organizam-se a partir de usos coletivos, relação com a natureza, vínculos espirituais e históricos e não segundo a lógica da propriedade privada moderna. Destruir um terreiro não equivale a remover um imóvel comum: representa a ruptura de uma territorialidade ancestral, com danos materiais, simbólicos e existenciais muitas vezes irreparáveis.


Meses após a demolição, achados arqueológicos emergiram nos escombros do terreno. Com suporte de pesquisadores de museologia de São Paulo, foram identificados peças de louça, assentamentos religiosos e a carta de alforria do avô de Mãe Zana. Apesar de três notificações do Iphan, a prefeitura ignorou a relevância histórica do local, revirando os escombros e asfaltando o local, ação classificada pelo Iphan como “mutilação e destruição do patrimônio”.


Letícia Gomes de Sousa é arquiteta e urbanista pela UFPI, mestre pela FAUUSP, pesquisadora Fiocruz, integrante da Rede BrCidades em São Paulo e militante do MST em territórios de reforma agrária no estado.


Texto na íntegra: https://www.cartacapital.com.br/blogs/br-cidades/a-demolicao-de-um-terreiro-e-o-racismo-que-organiza-as-cidades-brasileiras/

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