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A fantasia caiu: o carnaval como laboratório da cidade-cassino e do ‘apartheid’ urbano

Antônio Celestino

6 de mar. de 2026

BrCidades no IHU

Em 2026, o Brasil tirou a fantasia e deixou à vista a cidade que construiu. O carnaval, essa festa que Roberto da Matta chamou de “inversão da ordem”, revelou-se, ao contrário, a mais perfeita confirmação dela. Das passarelas climatizadas de Salvador às grades do Rio de Janeiro, dos banheiros químicos que somem em São Paulo ao catador que se curva sob o peso das latas enquanto a folia passa por cima, o Momo de 2026 não suspendeu as hierarquias: ele as exibiu com orgulho.


I. A Economia da Desesperança: quando o cassino comprou o confete


Houve um tempo em que a cerveja patrocinava o carnaval, e isso já dizia muito sobre os nexos entre cultura popular e capital. Em 2026, esse tempo acabou. As cervejarias abriram alas para as casas de apostas, e a virada não é apenas de logotipo, é de lógica. Enquanto a cerveja vende euforia efêmera, a bet vende a ilusão estrutural de que a pobreza tem solução instantânea. O produto mudou; a despossessão permanece.


A Esportes da Sorte, operadora investigada pela Operação Integration, em 2024, por suspeitas de lavagem de dinheiro e jogo ilegal, tornou-se patrocinadora oficial do carnaval em sete capitais: Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Natal e Maceió. Completam o cerco visual dos circuitos a Bet Nacional, Superbet, Galera.bet e H2Bet. A cidade vira cassino a céu aberto, e a fantasia, uma vitrine ambulante de apostas.


Os dados da Confederação Nacional do Comércio são implacáveis: 1,8 milhão de brasileiros tornaram-se inadimplentes em razão de apostas on-line em 2024. O espaço público, que a teoria urbana define como território democrático por excelência, converte-se em ponto de venda de um produto financeiro predatório. O direito à cidade é mediado pelo consumo. O cidadão, convertido em apostador compulsivo em potencial.


“A cidade se transmuta em cassino a céu aberto. O espaço público vira vitrine de uma economia da desesperança.”


Isso é acumulação por despossessão em sua forma mais sofisticada: não há necessidade de expulsar fisicamente os pobres das ruas quando se pode colonizar o imaginário da festa com a promessa do enriquecimento. O carnaval, que sempre foi resistência e invenção coletiva, torna-se vetor de endividamento.



Antônio Celestino é advogado popular, doutorando em Geografia pela UFAL, associado ao IBDU e membro da Secretaria Nacional da Rede BrCidades.


Texto na íntegra: https://www.ihu.unisinos.br/662980-a-fantasia-caiu-o-carnaval-como-laboratorio-da-cidade-cassino-e-do-apartheid-urbano-artigo-de-antonio-celestino


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