
Guilherme Machado
29 de jan. de 2026
BrCidades no Jornal GGN
Na minha infância, costumava-se dizer que os nossos pais, amigos e vizinhos eram “comerciantes”, não “empresários”.
Na pequena cidade litorânea do sul do Brasil, onde nasci, os últimos trinta anos foram um período de crescimento econômico visível. Impulsionada quase exclusivamente pelo turismo, a cidade viveu uma explosão do mercado imobiliário, uma multiplicação rápida dos estabelecimentos comerciais, da infraestrutura hoteleira e gastronômica, assim como de diversos serviços e negócios associados ao turismo de veraneio. Ela segue assim uma tendência de uma série de cidades litorâneas da região que têm passado por um processo semelhante.
Em uma visita recente à cidade, depois de muitos anos ausente, o que me impressionou, para além das imensas construções que desfiguraram a cidade da minha infância, foi ver como os proprietários de estabelecimentos comerciais, que formam uma parte significativa das classes média e rica da cidade, se autodenominam agora “empresários” (o uso do masculino aqui reflete a minha experiência: eles são majoritariamente homens).
Isto chamou-me a atenção porque parece ter havido uma evolução na maneira como estes donos de comércios concebem a sua atividade e, ainda mais, a sua personalidade. Na minha infância, costumava-se dizer que os nossos pais, amigos e vizinhos eram “comerciantes”, não “empresários”. O empresário parece ter tomado o lugar do comerciante à medida que os comércios se multiplicaram, que os proprietários mais afortunados passaram a reivindicar um maior poder político e de decisão sobre o investimento público municipal, e que o ambiente geral da cidade passou a ser mais claramente marcado pela existência de empreendimentos financeiramente bem-sucedidos.
A evolução da autodenominação dos proprietários comerciais da cidade parece refletir algo mais do que uma simples preferência de vocabulário. A diferença de sentido formal das palavras também não explica a difusão rápida do “empresário”, que muitas vezes substitui, inclusive, denominações habitualmente prestigiosas como a de “engenheiro”, “arquiteto” e até “doutor (médico)”, quando estes são também proprietários de empresas.
Há boas razões para se pensar que o uso do termo “empresário”, em vez de “comerciante” ou outra denominação profissional, corresponde a uma reivindicação de um novo status social na cidade, que indica uma nova postura de um grupo de comerciantes e outros profissionais procurando legitimar uma posição superior de seus interesses com relação aos interesses dos não-empresários (empregados, desempregados, funcionários públicos, donas de casa, profissionais liberais, pequenos comerciantes, associações, etc.), assim como uma maior autoridade política da classe patronal. Esta estratégia de linguagem, no entanto, é dependente de uma série de fatores culturais ligados à nossa cultura visual, na qual a figura do empresário vem articulando há décadas valores estéticos e morais que buscam justificar a hegemonia dos interesses daqueles que encarnam esta figura.
De fato, as categorias de comerciante e de empresário remetem a imaginários e narrativas bastante diferentes. Enquanto o comerciante aparece como um profissional comum, sem classe, comportamento ou educação bem definidos, que pode ser a senhora no caixa de sua padaria como o senhor à frente de seu restaurante familiar, a figura do empresário remete, por sua vez, menos a uma profissão em geral do que a um indivíduo com qualidades, formação e posturas específicas.
No cinema, na televisão e na internet, o empresário (e cada vez mais também a empresária) se caracteriza por um certo modo de se vestir, de se comportar e de falar, que o distingue do simples comerciante. Sua posição é muitas vezes justificada por uma história de vida e de formação (não necessariamente acadêmica) que explicam o caráter racional de suas decisões e que dão exemplos de sua coragem para assumir riscos: qualidades essenciais de um bom administrador. É, por exemplo, a figura de bilionários como Elon Musk, Mark Zuckerberg e Jeff Bezos, tal qual pintada em filmes, na TV e nas redes sociais.
O empresário é um homem de ações individuais, que constrói o seu futuro com as próprias mãos, sua inteligência, sua criatividade. Contrariamente ao comerciante, cuja família está sempre por perto, a sua história familiar interessa pouco (a menos que sirva para realçar suas eventuais origens modestas). O que conta mesmo é a história de suas experiências individuais, de suas conquistas e de suas inúmeras derrotas. Acima de tudo, de sua inabalável obstinação, de seu esforço e da sua vontade. Daí o seu “mérito” indiscutível. Sua história é pautada por ações hercúleas diante de uma série de adversidades.
Enquanto o comerciante se aflige, se queixa para quem quer ouvir dos seus problemas, aparentemente sem solução, o empresário apresenta soluções. É isto que faz o seu brilho. Para ele, não há obstáculos intransponíveis que o obriguem a buscar conselhos ou a dar mostras de vulnerabilidade. É ele só que prodiga conselhos e que manifesta generosidade. É dele que provêm a salvação dos pobres e a prosperidade da nação. Sua experiência pessoal é uma fonte de sabedoria prática inesgotável. Sua autoconfiança e seu otimismo incondicionais. Suas ordens são naturais, suas exigências razoáveis, seus pontos de vista os mais “realistas”.
Mais ainda, o empresário não se atrela a nenhum ambiente em particular, nem ao caixa, nem ao balcão, nem à fachada de um velho estabelecimento. É quase um corpo por si só, cabeça pensante, organismo autônomo. Sem mestre e, no fundo, sem apego a ideologias. Para o empresário, tudo é “cálculo”, “estratégia” e “situação”. É um herói desapegado. O que o orienta são as suas ambições. O que faz dos seus negócios promessas de fortuna é a sua fé inabalável na palavra de ordem da “modernização”.
No contexto desta cultura visual, autodenominar-se empresário equivale a adotar a imagem de uma figura superior à do simples comerciante. É recorrer a uma reserva de símbolos valorizantes já bem estabelecidos para construir a identidade pública de um comércio, de um cidadão e, cada vez mais, de um candidato à prefeitura. Assim, os antigos comerciantes da minha cidade não apenas se dizem empresários, mas também se vestem, se comportam e falam como empresários (pelo menos nas imagens que eles divulgam nas redes sociais de seus comércios e nos outdoors publicitários, onde a figura do empresário com o olhar fixo no horizonte tornou-se frequente).
Como em outras regiões do país, o empresário é agora a figura que todo mundo vê por todo lado. Alguém que realça a qualidade dos estabelecimentos dando um rosto humano, um aspecto sério e racional a serviços de hotéis, restaurantes e imobiliárias. Esta figura tornou-se aí um símbolo de qualidade, uma estratégia publicitária, mas também política, em mais uma versão do colonialismo estético da cidade (Miami e Santa Mônica sendo já referências comuns e declaradas para as supostas “melhorias” da paisagem costeira).
A ironia do empresário, de sua eficácia política e comercial, está no fato de ser uma figura. O que difere o comerciante do empresário não é nenhum atestado de propriedade, nenhuma cota de investimento, mas uma performance, uma disposição à imitação. Isto é evidente quando recebemos de conhecidos na cidade, pelo celular, imagens deles fazendo a publicidade dos seus comércios. O efeito sedutor das imagens é, então, contrastado com as palavras ora vaidosas, ora tímidas de homens pouco acostumados a encarnar personagens até recentemente distantes da realidade local e a ver o resultado de seus desempenhos.
O avanço progressivo da figura do empresário parece causar uma certa ansiedade entre antigos comerciantes. Esta figura surge, contudo, como via de ascensão social num cenário de concorrência crescente e de disputas que vêm transformando a política urbana do litoral sul do país, enfraquecendo antigas solidariedades entre comerciantes e silenciando vozes no debate democrático sobre o futuro das cidades. Agora, parece que só os empresários têm a legitimidade de governar. Eles é que estão com a “pinta” de governantes.
Guilherme da Silva Machado é pesquisador na Universidade de Lausanne (Suíça) e colaborador da Rede BrCidades.
Texto na íntegra: https://jornalggn.com.br/cronica/a-figura-do-empresario-no-litoral-sul-do-brasil-por-guilherme-machado/

