
André Augusto Araújo Oliveira
11 de mai. de 2026
BrCidades no GGN
Na USP, onde se produz conhecimento de ponta, também se reproduzem formas sofisticadas de exploração. O contraste é gritante.
A greve nas instituições de ensino superior não é apenas uma interrupção de calendário; é, antes de tudo, uma fissura que revela o que a rotina acadêmica insiste em esconder: a precarização do trabalho, a hierarquização dos saberes e a naturalização de desigualdades que atravessam corpos e trajetórias. Quando docentes, técnicos e trabalhadores terceirizados cruzam os braços, não se suspende apenas o funcionamento da universidade, suspende-se a ilusão de que ela é um espaço neutro, imune às contradições do mundo do trabalho. A universidade, nesse momento, deixa de ser vitrine de excelência e se expõe como território em disputa.
Na Universidade de São Paulo, uma das maiores e mais prestigiadas instituições da América Latina, essa tensão ganha contornos ainda mais emblemáticos. Ali, onde se produz conhecimento de ponta, também se reproduzem formas sofisticadas de exploração. O contraste é gritante: enquanto a universidade projeta inovação, muitos dos que a sustentam, do trabalhador terceirizado ao pesquisador em formação, vivem sob condições instáveis, invisibilizadas e, muitas vezes, naturalizadas como parte do “caminho acadêmico”.
É nesse cenário que a pergunta “quanto vale o trabalho sob regime CLT?” se torna menos jurídica e mais política. A Consolidação das Leis do Trabalho, frequentemente tratada como um piso mínimo de direitos, passa a ser, paradoxalmente, um horizonte inalcançável para muitos dentro da universidade. Bolsistas de pós-graduação, por exemplo, não são reconhecidos como trabalhadores, apesar de cumprirem jornadas intensas, produzirem conhecimento e sustentarem boa parte da pesquisa nacional. Não têm férias, 13º salário, previdência ou estabilidade. São, em essência, trabalhadores sem direitos, capturados por uma lógica que romantiza a precariedade como vocação.
Mas é impossível falar de universidade sem nomear aqueles que garantem sua materialidade cotidiana: os profissionais técnico-administrativos. São eles que sustentam o funcionamento invisível das engrenagens institucionais: bibliotecas, laboratórios, secretarias, sistemas acadêmicos. O pleito por um plano digno de cargos e salários não é uma reivindicação corporativa isolada; é uma exigência estrutural por reconhecimento, valorização e justiça. Quando esses trabalhadores reivindicam melhores condições, não estão apenas lutando por si; estão defendendo a própria possibilidade de uma universidade pública que funcione com qualidade, continuidade e respeito.
André Augusto Araújo Oliveira é assistente social, doutorando em Arquitetura e Urbanismo pela USP, mestre em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Social pela UCSal, integrante e coordenador da Rede BrCidades e coordenador do MTST na Bahia.
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