
Marcelo Karloni da Cruz
26 de jun. de 2026
BrCidades na Carta Capital
O fenômeno da migração, presente em toda história, dá-se por uma combinação de fatores. Fatores de toda ordem. A busca por emprego, melhores condições de vida, crises econômicas, desastres naturais, guerras, perseguições e outra infinidade de motivos podem ser elencadas como motivações dos migrantes. No entanto, será fora das estatísticas e dos indicadores econômicos que o fenômeno da migração traz junto a si a trajetória de perdas, expectativas, frustrações e esperança. A migração é fundamentalmente um rompimento com um território de origem e a busca pela reconstrução de vida e identidade em outro.
A escolha por migrar nem sempre é livre e voluntariosa. Na verdade, não na maioria dos casos. Na maior parte é uma estratégia última para assegurar sobrevivência quando se tem negadas oportunidades e direitos. Ainda que as migrações humanas tenham motivos variados, estudos recentes sobre a dinâmica migratória no Brasil demonstram que as razões de natureza econômica seguem sendo as principais. Há estimativas de que cerca de 55% a 65% das migrações no Brasil ocorrem tendo como motivação a busca por emprego, renda e ascensão social. Aparecem em seguida educação, saúde, reunião familiar e melhores condições de vida.
Entre 10 e 20% do total de migrações internas no Brasil são relacionadas a aspectos como violência, desastres naturais e demais condições objetivas que fundam um quadro de vulnerabilidade.
Mas há dados importantes trazidos pelo IBGE no último Censo Demográfico. Sabe-se, por exemplo, que em torno de 19,2 milhões de brasileiros hoje residem em região diferente daquela onde nasceram. Mais da metade desse contingente é formado por nordestinos e desses 65,5% fixaram moradia na região sudeste.
Há uma obra escrita entre 1954 e 1955 por João Cabral de Melo Neto que narra a jornada de um retirante do sertão nordestino em direção ao litoral pernambucano. É um poema escrito dentro de um período no Nordeste brasileiro ao longo do qual problemas sociais graves todos derivados da concentração de terras, seca e pobreza rural. É tida como um Auto de Natal Pernambucano.
A trajetória narrativa é de Severino, o retirante. Como todo migrante parte em busca de melhores condições de vida. Ele segue o rio Capibaribe no sentido de Recife, mas ao longo de sua migração encontra um rastro de morte, fome, miséria, violência, exploração do trabalho e precariedade. Sim, é a tragédia que predomina na viagem, mas seu fim é esperançoso. A história desse migrante oscila então entre a morte e a vida, entre o desespero e a esperança.
A migração segue sendo um fenômeno contemporâneo de considerável relevância para o entendimento de várias formas de desigualdade presentes na sociedade capitalista. Sua importância reside exatamente na espacialização dos ganhos e perdas entre privilegiados e miseráveis. Mas está presente em toda a história. Pode-se citar as migrações dos povos Indo-Europeus na antiguidade partindo das Estepes da Eurásia para a Europa, Oriente Médio e sul da Ásia entre os anos 4000 e 1000 a.C. na busca por recursos e expansão territorial; a migração forçada dos africanos escravizados na era moderna entre os séculos XVI e XIX, para compor mão de obra nas colônias europeias e mesmo a crise dos refugiados Sírios na contemporaneidade em direção à Turquia, Líbano, Jordânia e países europeus que ocorre desde 2011 e que tem como motivos a guerra civil.
Na contemporaneidade, o fenômeno da migração traz novos desafios. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais (UN DESA), em 2024 havia 304 milhões de migrantes internacionais, ou seja, 3,7% da população mundial naquele ano era formada por migrantes.
Desse total, segundo a ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados) 123,2 milhões de pessoas tinham sido deslocadas à força. Do mesmo modo que Severino migra em meio a um contexto de condições precárias de sobrevivência e reprodução social, todos esses grupos na contemporaneidade realizam seus deslocamentos tendo como horizonte uma idealização de uma vida melhor longe de suas fronteiras geográficas.
Entretanto, a migração não pode ser vista como processo de natureza puramente espacial. De fato, ela manifesta um conjunto de variadas desigualdades sociais que se reproduzem movidas por um mecanismo perverso de acumulação de riqueza e manutenção da pobreza e miséria.
É a migração motivada por uma necessidade de reprodução social, não sendo, portanto, uma escolha e pela busca de uma vida melhor diante de um território de origem que “expulsa” seus “filhos”. São, portanto, questões estruturais que estão no fundamento de todas as formas de migração hoje e na história.
Há na experiência de Severino semelhanças de natureza estrutural que podem ajudar na elucidação dos fatores que levaram 304 milhões ao fim do ano de 2024 a compor o universo de migrantes no planeta.
A primeira semelhança refere-se à contínua reprodução de um modo de civilidade que contém em sua lógica a concentração dos ganhos econômicos com um percentual que é a cada ano menor de indivíduos no mundo e que castra oportunidades às maiorias.
O protagonista da obra de João Cabral abandona o sertão, seu lugar de origem, porque ali onde nasceu não há nem condições de sobrevivência nem oportunidades longe do comando de “coronéis” e mandatários. Nesses espaços, ou o migrante literalmente foge desse conjunto de condições que lhe são impostas ou terá uma vida em eterna sujeição e medo. A migração não é assim uma escolha, antes uma imposição de agentes fora do controle do sujeito.
A segunda semelhança assenta-se sobre fatores de ordem natural, mas com repercussões sociais graves. A continuidade da vida dos sujeitos mais empobrecidos se vê agravada ainda por razões que embora estejam fora do controle imediato da ação humana, findam também por obrigar deslocamentos. Secas, desastres naturais, desertificação e outros elementos da crise climática são fatores de expulsão de milhares de pessoas anualmente em todo o mundo.
Desastres naturais como tempestades, enchentes e assemelhados, no ano de 2024 forçaram o deslocamento interno de 45,8 milhões de pessoas em todo o mundo segundo Internal Displacement Monitoring Centre (IDMC).
Somente no Brasil 745 mil deslocamentos foram registrados no ano de 2023 motivados por desastres ambientais. No ano anterior, em 2022, o país registrou algo em torno de 708 mil deslocamentos internos e todos relacionados a desastres ambientais, sendo o maior número das Américas.
A terceira semelhança entre Severino e os milhares de migrantes em todo o mundo é a representação da esperança contida no poema de João Cabral de Melo Neto. O destino para o qual o migrante olha como fim de jornada é sempre idealizado e tido como espaço de oportunidades. Frequentemente não é essa a realidade enfrentada, porém quando este chega ao seu destino.
A busca por oportunidades, ainda que em novo espaço, será também acirrada posto que não apenas “Severino” migra, mas milhares de outros “Severinos” também fizeram a jornada e entre si concorrerão pelo acesso a melhores condições de vida.
Portanto, a questão é estrutural, a tal ponto que o mesmo espaço que recebe migrantes será também o que expulsa os seus. É nesse movimento de “idas e vindas” que a migração como processo historicamente determinada seguirá sendo quase como uma perfeita “radiografia” dos espaços das desigualdades do capitalismo contemporâneo.
A migração quase nunca surge como uma escolha livre. Migrar dói. Inclui abandono, perda de laços, saudades, solidão e não poucas vezes isolamentos.
É ela, porém, que se oferece como última saída a quem por anos insiste em permanecer na terra onde nasce. A trajetória de Severino é a mesma em essência que a de milhões de pessoas em todo mundo que no exato instante dessa leitura a iniciam.
Um dos mais conhecidos movimentos migratórios no Brasil realizado no século XX foi o trajeto Nordeste / São Paulo. Na década de 1930 foi fenômeno de massa. A ida para São Paulo realizada por milhões de trabalhadores na direção do principal centro econômico industrial do país foi impulsionada pela seca e subtração de oportunidades que favoreceu a concentração dessas exatamente no Sudeste.
O fenômeno da migração também possui essa dimensão importante. Ele revela que para que haja espaços de dinâmica econômica intensa, é preciso haver espaços de pobreza que expulsem trabalhadores para serem mão de obra barata onde o capital se instala. A migração, portanto, cumpre papel essencial na acumulação de capital. Não há sob o capital, nenhum espaço rico sem que haja na outra ponta, um espaço empobrecido.
No século XXI outro tipo de migração tem sido determinante na manutenção dos números de sujeitos deslocados, a que obedece a fatores ambientais. Em 2024, desastres naturais forçaram o deslocamento em de 45,8 milhões de pessoas dentro de seus próprios países como registrado pelo Internal Displacement Monitoring Centre.
Há, porém, outro fator de expulsão que precisa ser considerado pelo impulsionamento dos números de imigrantes no mundo na contemporaneidade, as guerras. De acordo com a ACNUR, 123,2 milhões de pessoas em 2024 foram deslocadas de seus lugares de origem motivadas por guerras, perseguições e violações de direitos humanos. Sudão, Síria, Afeganistão e Ucrânia são as maiores crises nesse sentido.
A fronteira vista como portão de oportunidades. Entretanto, não cumpre sua promessa sempre. O migrante precisa lidar também agora em muitos desses novos espaços de oportunidade com estigmas e preconceitos. Passa a ser um outsider eterno, estranho e indesejado quando adentra territórios como o dos Estados Unidos da América e certos países da Europa.
Por exemplo, sob o governo de Donald Trump, os EUA intensificaram operações de deportação em massa de imigrantes nos últimos anos. Em 2026, 442.637 pessoas haviam sido deportadas daquele país. A meta era de um milhão de deportações. O migrante enfrenta assim ao fim de sua jornada não poucas vezes, barreiras ainda maiores ou iguais às atravessadas nas travessias.
No fim de sua jornada, Severino descobre que sua travessia durará enquanto vivo for. Essa é a realidade dos milhões de migrantes em todo o mundo. É uma travessia no espaço geográfico, mas também uma travessia que se eterniza no destino de todos. Foge-se da seca, da guerra, do conflito, do desastre para, do outro lado, ainda continuar em travessia na busca por oportunidades e identidade assegurada.
Tal qual o poema de João Cabral de Melo Neto, na contemporaneidade a migração é mais do que deslocamento geográfico. É deslocamento de identidades, é exposição de territórios incapazes de garantirem autonomia e vida digna a seus habitantes originários.
O migrante carrega ainda assim um Lamento, tal qual exposto na letra da música de Geraldo Vandré, Lamento sertanejo. Carrega memória, costumes e solidão. Mudará de lugar, mas nunca deixará de “ser de lá”. Será “rês desgarrada” caminhando na multidão à esmo enquanto busca construir seu próprio caminho.
Severino não representará tão somente o migrante nordestino da década de 1950 no Brasil. Será Severino a representação ideal dos milhões de deslocados por desastres ambientais, guerras e mesmo ainda pela seca do nordeste. Severino é atual, contemporâneo enquanto a civilidade do capital continuar sendo nas palavras de Chico de Oliveira a “negação da civilização”.
Marcelo Karloni é Doutor em Geografia pelo programa de pós-graduação em Geografia da Universidade Federal de Pernambuco na área de Dinâmicas Territoriais e Regionalizações, mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e coordenador da rede BrCidades.
Texto na íntegra: https://www.cartacapital.com.br/blogs/br-cidades/as-cidades-dos-severinos-a-migracao-como-retrato-das-desigualdades-do-seculo-xxi/

