
GT LGBTQIAPN+
29 de jan. de 2026
BrCidades no Jornal GGN
Nós, pessoas LGBTQIAPN+, dissidentes de gênero e sexualidade, presentes no IV Fórum Nacional da Rede BrCidades de 2025, apresentamos esta carta-manifesto à rede para afirmar nossa existência, resistência e contribuição fundamental para a construção da luta pela Reforma Urbana Popular. Nossa iniciativa emerge da urgência de reconhecer a luta da população LGBTQIAPN+, em consonância com os movimentos sociais organizados, e garantir nossa presença ativa e segura nos mais diversos espaços de mobilização, discussão, construção e, sobretudo, de decisão que compõem a rede BrCidades, com o compromisso de execução de seus compromissos coletivos.
A realidade das pessoas LGBTQIAPN+ no Brasil
As pessoas LGBTQIAPN+ no Brasil enfrentam diariamente múltiplas violências que atravessam suas trajetórias de vida de forma profunda e persistente, as quais não se restringem à alarmante dimensão física, mas se manifestam também na simbólica, institucional, econômica e afetiva. Elas moldam nosso acesso à educação, ao trabalho, à renda, à moradia e aos espaços de convivência, produzindo um ciclo de exclusão que se inicia muitas vezes ainda na infância.
Vivemos em um país que, há 18 anos, carrega o maior índice de assassinatos de pessoas trans no mundo. Dos casos registrados em 2025, 77 tiveram como alvo travestis e mulheres trans, enquanto 3 casos envolveram homens trans e pessoas transmasculinas. Naqueles que foi possível identificar raça ou cor, 70% das vítimas eram pessoas trans negras. (ANTRA, 2026). Além da violência letal, essa estrutura traz graves consequências à saúde mental da nossa população, tornando o adoecimento mental e o suicídio muito presentes em nossas vidas. Essa transfobia integra o projeto colonial e se articula à violência sobre territórios, modos de existir e corpos, que são território e ancestralidade (SOUZA, 2025).
Desde a infância, pessoas LGBTQIAPN+ enfrentam um percurso contínuo de exclusão que se inicia, de forma marcante, no ambiente escolar e se prolonga até a vida adulta. Conforme pesquisa da ABGLT (2024) cerca de 60% dos jovens LGBTQIAPN+ se sentem inseguros nas escolas brasileiras e 86% desses já sofreram violência verbal, física ou psicológica. Portanto a escola, que deveria ser espaço de proteção e desenvolvimento, é frequentemente atravessada por insegurança e diferentes formas de violência, especialmente contra jovens trans e travestis, resultando em altas taxas de evasão e em um acesso extremamente restrito ao ensino superior, cenário ainda mais agravado nas periferias. Essas barreiras educacionais se desdobram no mercado de trabalho, onde a sub-representação, a discriminação e as violências simbólicas permanecem estruturais, particularmente para pessoas trans, empurrando grande parte dessa população para a informalidade, o subemprego e a precarização das condições de vida.
Esses números revelam que, apesar de avanços jurídicos e da crescente visibilidade, o Brasil continua construindo cidades perigosas às pessoas LGBTQIAPN+. De fato, nada disso é acidental e nem pontual, mas sim o resultado de uma política sistêmica de morte que historicamente se impõe sobre nossos corpos, desde a colonização, por uma sociedade que é elitista, branca, patriarcal, capacitista, binária e cis-heteronormativa, e que abertamente clama pela nossa morte, apagamento, subalternidade e negação de direitos, principalmente quando olhamos marcadores de raça, classe e território, vulnerabilizando ainda mais a população LGBTQIAPN+ negra e periférica.
LGBTQIAPN+ como pessoas construtoras da cidade e das lutas sociais
Quando nos expulsam, silenciam ou matam, não se perde apenas uma vida, mas a memória, cultura e futuro coletivo também são atacados e é necessário romper o silêncio histórico que nos violenta sistematicamente. Diante desse cenário, nossa história demonstra que a organização é a forma mais eficaz de enfrentamento deste quadro sociopolítico. Coletivos e redes comunitárias se articulam há anos em todo o país para construir espaços de acolhimento, formação e autonomia que funcionam como territórios de afeto e sobrevivência onde se elaboram novas formas de existir e de se proteger diante da violência institucional.
No campo jurídico e político, as últimas décadas trouxeram conquistas importantes para a consolidação da nossa cidadania, como o reconhecimento da união homoafetiva, a criminalização da LGBTQIA+fobia e o direito à identidade de gênero. A visibilidade também tem sido uma estratégia, a partir das paradas e manifestações que ocupam o espaço público não apenas como celebração, mas como reivindicação política e memória coletiva.
Na história mais recente, a 4ª Conferência Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ de 2025 se consolidou como um marco importante de construção democrática de políticas públicas por ter propostas aprovadas que mostram um avanço ao pensar a proteção de forma integrada, unindo ações de segurança, saúde, educação e assistência social em um único sistema nacional. É significativo observar que essa construção coletiva foi protagonizada por uma ampla rede de movimentos sociais, organizados em alianças estratégicas com coletivos liderados por pessoas trans, refletindo a força da organização popular e a compreensão de que as lutas por direitos são interligadas.
Os avanços conquistados representam uma transformação profunda e civilizatória, ainda que em construção e convivendo com retrocessos e resistências conservadoras, demonstrando que o reconhecimento legal não é suficiente sem a transformação cultural e social das práticas cotidianas. Essas são vitórias diretas da luta organizada e que precisam ser seguidas de vigilância constante sobre o orçamento público e a vontade política dos governos.
É aqui que a importância das frentes amplas e democráticas, que reúnem movimentos sociais, sindicatos e partidos progressistas, se revelam espaços vitais para dar sustentação política a essas pautas, encaminhando ações de formações para articular a pressão social necessária para implementar as mudanças, defender os espaços democráticos e garantir que os avanços coletivos não fiquem apenas no papel. Seguir construindo e fortalecendo essas frentes é, portanto, uma condição para que as propostas se tornem indicadores de vida digna para toda a população LGBTQIAPN+ do Brasil.
Esses movimentos evidenciam que as pessoas LGBTQIAPN+ não são apenas vítimas do espaço urbano opressor, mas também atores relevantes dentro dos processos políticos e sociais impulsionados pelos movimentos sociais organizados no Brasil, contribuindo ativamente para a cultura e para a construção dos territórios urbanos e rurais.
Compromissos coletivos
Apesar de conhecermos nossa relevância na luta pela Reforma Urbana Popular, frequentemente nos deparamos com a LGBTQIAPN+fobia velada em espaços que se dizem lutar ao nosso lado. A dificuldade em reconhecer nossas pautas, respeitar nossas identidades e corpos plurais e nossas atuações enquanto profissionais e pessoas de luta nos espaços de organização popular demonstra a persistência deste problema, que é estrutural e estruturante. Entendemos que existem interseccionalidades importantes no que tange o fim da opressão do patriarcado e das violências sistêmicas baseadas em classe, raça e gênero e, por isso, a luta da comunidade LGBTQIAPN+, englobando identidades de gênero e orientações sexuais dissidentes que extrapolam as questões pertinentes ao feminismo cisgênero e branco, deve ser também valorizada e agregada com as agendas de luta, inclusive pela Rede BrCidades.
É importante que, como rede, a gente se comprometa a:
Reconhecer a importância das pessoas LGBTQIAPN+ no contexto das lutas anti-opressão;
Promover o letramento de gênero e sexualidade no âmbito nacional da Rede, em seus núcleos e espaços de discussão política, rompendo ativamente com o pacto da cis-heteronormatividade que busca nos subalternizar;
Assegurar a presença física e a voz ativa das pessoas LGBTQIAPN+ em todos os seus processos de construção política e tomada de decisões coletivas;
Compromisso com as ferramentas anti-opressoras e interseccionais, reconhecendo que a opressão que nos atinge está intrinsecamente ligada também a fatores de raça, classe e território.
Este é um chamado à Rede e às pessoas que lutam pela Reforma Urbana Popular a honrar o compromisso contra toda forma de opressão, a romper com as estruturas patriarcais da branquitude e a reconhecer as especificidades presentes nas vivências LGBTQIAPN+. Somente através da construção da luta organizada com uma visão interseccional é possível enfrentar a violência sistêmica que se manifesta nas ruas e nos espaços públicos e privados.
Nós, pessoas LGBTQIAPN+, continuaremos existindo, resistindo e construindo as lutas populares. E a criação do Grupo de Trabalho LGBTQIAPN+ da Rede BrCidades vem com esse objetivo fundamental.
GT LGBTQIAPN+ do BrCidades.
ANTRA. Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Dossiê: assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2025. Disponível em: https://antrabrasil.org/wp-content/uploads/2025/01/dossie-antra-2025.pdf
SOUSA, Azzy M.; PANKARÁ, Nicholas; TUPINIKIM, Danilo; BELMONT, Flávia; MASO, Tchella. Corpos e Territórios: Colonialidade, Transfobia e Genocídio de Indígenas Trans e Travestis. Em Dossiê: assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2025. ANTRA.
Texto na íntegra: https://jornalggn.com.br/artigos/carta-manifesto-de-criacao-grupo-de-trabalho-de-pessoas-lgbtqiapn-da-rede-brcidades/

