
André Augusto Araújo Oliveira
Karine Corrêa
21 de mar. de 2026
BrCidades no Jornal GGN
Refletir sobre o solo é um passo para compreender que o racismo não se manifesta apenas nas relações sociais, mas se materializa no espaço
O Brasil gosta de se contar como milagre de mistura. Diz que aqui todo mundo se encontra, que somos feitos de muitas cores abraçadas. Mas não é essa a verdade observada no território. O mapa das cidades é mais sincero que o discurso oficial, é nele que se apresenta quem mora no alto e quem mora no fundo, quem tem escritura e quem tem medo. Quem tem varanda e quem tem vala. A moradia no Brasil tem cor, longe de ser metáfora, é herança.
E neste 21 de março, data que marca o Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, refletir sobre o solo brasileiro é o primeiro passo para compreender que o racismo não se manifesta apenas nas relações sociais, mas se materializa no espaço, na distribuição desigual da terra e na forma como as cidades são estruturadas.
A abolição libertou o corpo, mas fez questão de negar o chão. O povo negro deixou a senzala sem acesso à terra, sem teto e sem direito de permanecer. Seguiu caminhando até onde dava, até onde sobrava, até onde o poder rejeitava. Foi assim que cresceram as periferias, os morros, as palafitas, os becos e as vielas. Também foi desse modo que se constituiu um outro Brasil, tecido pela partilha, pelo mutirão e pela vizinhança que vira família. Aquilo que muitas vezes é descrito como improviso ou informalidade pode ser entendido como continuidade de formas históricas de organização da vida negra, nas quais o cuidado comunitário e a construção coletiva do espaço constituem modos de resistência e permanência.
Em nome da técnica, do planejamento e do progresso, a cidade formal foi erguida. Mas toda técnica carrega escolha. E toda escolha revela lado. Não por acaso, como bem afirma Joice Berth, o racismo tem sido um dos verdadeiros urbanistas das cidades brasileiras. Mais do que uma falha, é um modelo que, ao longo do tempo, organizou o espaço para separar, hierarquizar e controlar.
O zoneamento dividiu. A avenida cortou. O muro protegeu uns e isolou outros. Nessa mesma lógica, a própria ideia de cidade se apoia em um passado marcado pela terra concentrada nas mãos de poucos, situação reforçada desde a Lei de Terras, que transformou a obtenção ao pedaço de chão em privilégio e manteve a população negra afastada desse direito. A isso se somaram projetos eugenistas e políticas higienistas, que buscavam “ordenar” a população a partir de critérios raciais. Assim se definiu quem podia ficar e quem tinha que sair.
A cidade foi desenhada como quem ergue uma cerca: de um lado, a casa-grande modernizada; do outro, a senzala atualizada em loteamento irregular. Trata-se da permanência de um modelo histórico de segregação urbana pautado na raça, no qual certos corpos seguem sendo impelidos para espaços de precariedade, enquanto outros continuam protegidos e valorizados.
André Augusto Araújo Oliveira é assistente Social, Mestre em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Social pela UCSAL e Doutorando em Arquitetura e Urbanismo pelo IAUUSP. Integra a Rede Negra de Planejamento Urbano e Regional e o Núcleo Salvador da Rede BrCidades.
Karine Corrêa é Arquiteta e Urbanista, doutoranda em Desenvolvimento Regional pela UFT. Compõe a Secretaria Nacional da rede BrCidades, é coordenadora estadual do Coletivo Nacional de Juventude Negra e integra o Centro de Estudos sobre Sustentabilidade, Populações Tradicionais e educação na Amazônia (Cesp).
Texto na íntegra: https://jornalggn.com.br/opiniao/da-casa-grande-a-cidade-senzala-por-oliveira-santos-silva/

