
Maynara Santos
23 de mar. de 2026
BrCidades na Carta Capital
Até hoje, projetos e obras públicas, frutos de intervenções estatais, contribuem para valorização, mercantilização, financeirização e privatização de parcelas das cidades.
Desde que foi anunciado, em julho de 2025, o projeto de implantação Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) em Campina Grande, na Paraíba, tem gerado tensão e mobilização popular. O projeto, viabilizado por recursos federais, ameaça despejar centenas de famílias que há décadas ocupam a faixa de domínio da linha férrea. Diante do risco de perderem suas casas para dar lugar a um processo de reestruturação urbana que privilegia a valorização imobiliária em detrimento da função social da cidade, as famílias atingidas organizam formas de resistência e lutam pelo direito à moradia.
O nó da terra, a raiz da questão
O contexto de predominância do ideário neoliberal e de financeirização da economia concebe as cidades a partir da lógica da mercantilização. Historicamente, o processo de urbanização das cidades brasileiras se deu por meio de um modelo de planejamento estruturado em torno da propriedade privada, respaldado por aparatos legais e institucionais que restringiram acesso de populações historicamente subalternizadas à terra e à moradia.
Até hoje, projetos e obras públicas, frutos de intervenções estatais, contribuem para a valorização, mercantilização, financeirização e privatização de parcelas das cidades. Essas dinâmicas excluem os mais pobres do mercado imobiliário formal, obrigando-os a recorrer a ocupações e loteamentos irregulares, muitas vezes em áreas de risco. Como resultado desse processo, tornam-se frequentes as ameaças de remoções e despejos forçados, sobretudo para viabilizar obras de infraestrutura e desenvolvimento urbano. Os efeitos desses processos são mais duros para os segmentos historicamente espoliados nas cidades brasileiras, incluindo os que vivem nas cidades médias, como Campina Grande, Paraíba.
O município, segundo maior do estado, é conhecido e difundido como a cidade do trabalho. É ainda comum a saída de muitas famílias das cidades circunvizinhas em busca de melhores oportunidades de emprego na Rainha da Borborema, mesmo que a maioria só tenha se inserido de modo precário no mundo do trabalho. Famílias pobres, com poucos recursos e que precisam ter acesso à moradia para garantir o mínimo de qualidade de vida. Com a falta de oportunidades públicas e sem ter acesso ao mercado formal, essas famílias passam a ocupar as áreas periféricas da cidade – inclusive, aquelas consideradas de risco. Foi assim que começaram as primeiras ocupações urbanas há 50 anos às margens dos trilhos da ferrovia que corta a cidade de norte a sul com seus 15km de extensão.
Maynara Santos é Mestre em História pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). Pesquisa sobre relações de gênero, feminismos, trabalho feminino e pós-modernidade. Atualmente, é vinculada ao Núcleo Paraíba do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Observatório das Metrópoles, no qual atua incidindo sobre temas ligados ao direito à cidade dentro e fora da academia.
Bárbara Martins é Graduanda em Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal de Campina Grande. Pesquisadora do Núcleo Paraíba do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Observatório das Metrópoles e integrante do núcleo Campina Grande da rede BrCidades.
Texto na íntegra: https://www.cartacapital.com.br/blogs/br-cidades/entre-trilhos-e-despejos-o-custo-social-do-vlt-em-campina-grande/

