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Ermínia Maricato: As lutas no “chão de cidade” em 2026

Rôney Rodrigues

12 de fev. de 2026

BrCidades no Outras Palavras

Renomada urbanista analisa os desafios do governo Lula nas políticas urbanas. Crítica uma esquerda que dá as costas ao debate sobre o futuro das cidades, onde vivem 85% da população. E propõe caminhos para unir as lutas sociais neste ano eleitoral.


Uma pensadora inquieta. Talvez esta seja uma boa definição da urbanista Ermínia Maricato. Há mais de cinco décadas, ela acompanha de perto a política urbana brasileira, em várias trincheiras: como pesquisadora em renomadas universidades; botando a mão na massa ao lado dos ativismos urbanos; e em experiências pioneiras no poder público. Hoje, Ermínia está à frente do BrCidade, uma articulação nacional em torno de um projeto de Reforma Urbana Popular, presente em 19 estados.


Nesta entrevista, ela traça um diagnóstico contundente dos atuais desafios da política urbana no Brasil — do desmonte institucional no período pós-golpe, especialmente o estrangulamento de recursos de programas habitacionais, aos entraves da reconstrução nacional proposta pelo governo Lula. Um deles é o “nó da terra” e a especulação imobiliária, o cerne da desigualdade urbana, aponta ela em sua crítica aos modelos de política habitacional que, mesmo ao construir milhões de unidades — como nos governos Lula —, muitas vezes reproduziu erros do passado.


Ermínia fala com a autoridade de quem conhece, por dentro, as virtudes e os vícios da institucionalidade. Não por acaso, participou ativamente da formulação das propostas para a área urbana das candidaturas de Lula à Presidência, de 1989 até a vitória em 2002. E, então, ajudou a criar o primeiro Ministério das Cidades do Brasil, onde tornou-se secretária-executiva — porém, entregou o cargo em 2005, quando, devido a arranjos políticos, a pasta foi entregue ao Partido Progressista (PP). Quando Lula venceu as eleições, em 2022, ela integrou a equipe de transição, quando foi produzido um levantamento do “legado” das políticas urbanas do governo Bolsonaro.


Com frequência, lamenta o abandono daquela efervescência de prefeituras democráticas nas décadas de 1980 e 1990, cujas políticas foram replicadas em várias partes do mundo. Ela participou deste ciclo como secretária de Habitação e Desenvolvimento Urbano do governo Luiza Erundina em São Paulo, que fez história na cidade. Os antolhos da esquerda de hoje também são frustrantes, diz ela, pois em um Brasil 85% da população vivendo nas cidades, o escandaloso apartheid urbano é sempre deixado de lado nos debates sobre a desigualdade. “O mercado imobiliário, como David Harvey já apontou, é por excelência no capitalismo global contemporâneo o espaço do investimento e do sobrelucro”, afirma. “Por que nossos melhores economistas progressistas não mostram isso?” 


A urbanista defende o resgate de iniciativas “subversivas” do passado recente com potenciais para transformar o Brasil. A construção de CEUs (Centros Educacionais Unificados) e Cieps (Centros Integrados de Educação Pública) que atendam a cada grupo de 20 mil habitantes pode ser um caminho. Se a educação é crucial para a justiça social nas cidades, pode haver também um casamento feliz entre urbanismo e saúde. “O povo sabe o que é saúde; já o que é urbanismo, muitas vezes, não”. Saneamento básico, gestão das águas, ocupação de áreas de mananciais e crise climática são temas, claro. Mas ela destaca uma escandalosa realidade em suas viagens pelo Brasil: casas com extrema insalubridade. “Se eu te mostrar as fotos…”, comenta, com o coração na mão. Esta união pode, também, ajudar a responder uma questão incômoda à militância por cidades mais justas: por que a Reforma Sanitária, que criou o SUS, deu certo e a Reforma Urbana não? Ela tem algumas pistas.


A urbanista sustenta que, para as eleições deste ano, é necessário “buscar o que nos une”. As lutas identitárias são importantíssimas, inclusive para a mobilização da militância, mas há duas pautas urgentes e catalisadoras: outros horizontes para o Orçamento Público e botar pressão para o Brasil cumprir a função social da propriedade, garantida pela Constituição. 


Rôney Rodrigues é editor de Outras Palavras. Formado em jornalismo pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), colaborou com veículos como Superinteressante, Caros Amigos, Brasil de Fato, Rede Brasil Atual e Revista Móbile. Assessorou movimentos sociais e entidades envolvidas na pauta urbana. Especializado na cobertura de temas relativos ao direito à cidade e em conflitos urbanos, mantém o blog outraspalavras.net/doispontos.


Texto na íntegra: https://outraspalavras.net/outras-cidades/erminia-maricato-as-lutas-no-chao-de-cidade-em-2026






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