top of page

Na roda viva da superexploração

Cristiane Lemos

3 de mai. de 2026

BrCidades no Outras Palavras

Apesar da redução do desemprego, a precarização se generaliza até em carreiras consideradas estáveis, como medicina. No centro, está a “pedagogia neoliberal” que estigmatiza a proteção trabalhista, adoece as pessoas e leva à perda de horizonte. Luta contra a escala 6×1 pode inspirar outras categorias?


Os versos de Chico Buarque, “a gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar, mas eis que chega a roda viva e carrega o destino para lá”  da música “Roda Viva” feita no período da ditadura militar brasileira, continuam a nos provocar. Os versos traduzem o desejo de autonomia. No entanto, a “roda viva” que arrasta o destino sugere perda de controle sobre nossas próprias vidas. Assim, neste  1º de Maio, permanecem questões centrais para reflexão: a “classe-que-vive do trabalho” ainda consegue resistir? Ainda podemos decidir nossos próprios caminhos e ter voz ativa? A ideia da “roda viva”, criada em um contexto de repressão, continua sendo uma metáfora potente para pensar as contradições entre autonomia e limites na vida de quem trabalha, bem como os desafios atuais da resistência.


Diante do avanço da superexploração do trabalho e da perda de direitos históricos conquistados, parece  haver por parte de muitos a sensação de impotência diante da resistência. As relações laborais  tornam-se cada vez  mais instáveis, marcadas pela terceirização, pela  pejotização e pela precarização. Ao mesmo tempo, os sindicatos parecem mais enfraquecidos, enquanto o individualismo do “empreendedor de si mesmo” reforça a impressão de que “está tudo dominado” pelos interesses do lucro.


O processo de precarização também atinge camadas tradicionalmente associadas ao prestígio social. Um exemplo é a medicina, historicamente vista como carreira de ascensão e estabilidade. Dados da Demografia Médica no Brasil mostram a intensificação das jornadas: em 2019, cerca de 45,9% das(os) profissionais entrevistadas(os) afirmaram  trabalhar mais de 60 horas por semana, contra 32,4% em 2014.  Entre aquelas(es) com jornadas superiores a  80 horas semanais, o percentual subiu de  16,9% para 28,9% no mesmo período.


Os dados mais recentes aprofundam este quadro. Em 2025, entre cirurgiãs(ões), 67% possuíam  quatro ou mais locais de trabalho, 74% atuavam como pessoa jurídica  e 63% recebiam por produção. Paralelamente, o emprego formal entre médicas(os) caiu de 54% em 2012 para 33,3% em 2023, além da expressiva redução dos vínculos estatutários.


Cristiane Lemos é Professora da Universidade Federal de Goiânia e coordenadora do Grupo de Pesquisa e Educação de Trabalho, Educação e Saúde (GEPETS). Colaboradora da Rede BrCidades.


Texto na íntegra: https://outraspalavras.net/outras-cidades/na-roda-viva-da-superexploracao/


Pilha de jornais
bottom of page