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Olhemos quem faz o Carnaval – o ano todo

André Augusto Araújo Oliveira

17 de fev. de 2026

BrCidades no Outras Palavras

Festejo assenta-se, muitas vezes, sobre corpos precarizados. Celebra a cultura negra, mas a persegue após o evento. Porém, nas vielas fora dos mapas oficiais, o povo negro disputa o sentido da celebração com outros ritmos e narrativas. Reflexões a partir de Salvador.


Salvador se anuncia ao mundo como a capital da alegria. Todos os anos, o carnaval é vendido como espetáculo democrático, popular, mestiço e vibrante. Mas basta deslocar o olhar do trio elétrico para o chão que sustenta a festa para perceber que a cidade não pulsa da mesma forma para todos. O carnaval escancara um urbanismo racializado, onde as vias são cuidadosamente desenhadas para garantir fluxo, consumo e visibilidade a alguns, enquanto as veias — os corpos negros, periféricos e trabalhadores — são exploradas, contidas e, muitas vezes, silenciadas.


O traçado da festa não é neutro. Os circuitos oficiais — Barra-Ondina, Campo Grande, Pelourinho — reproduzem uma lógica histórica de ocupação do espaço urbano que privilegia zonas valorizadas, turísticas e brancas. Ali, o asfalto é liso, a iluminação é reforçada, a presença do Estado se manifesta como proteção e organização. Para quem desfila nos camarotes, a cidade parece segura, funcional e acolhedora. Para quem trabalha na festa, mora nas franjas urbanas ou atravessa a cidade para garantir o sustento, Salvador se revela como um território de controle, exaustão e exclusão.



André Augusto Araújo Oliveira é Assistente Social, Mestre em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Social, Artista, cantor e produtor cultural, além de comunicólogo. Atua na interface entre cultura, território e políticas sociais.


Texto na íntegra: https://outraspalavras.net/outras-cidades/olhemos-quem-faz-o-carnaval-o-ano-todo/


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