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Onde há gás, há caos

Bianca Dieile da Silva 

14 de mai. de 2026

BrCidades no Jornal GGN

Onde há gás, há caos.


O maior número de mortes causadas por intoxicação acidental de gases e vapores está no Sudeste, com especial atenção para São Paulo.


Poucos sabem, mas gás vem da palavra caos. A explosão em São Paulo, que destruiu muitas casas, feriu e matou pessoas, nos lembra da existência de uma rede de gás inflamável que invadiu nosso subterrâneo. Um gás que pode explodir passando por baixo de cidades e casas nunca me pareceu uma boa ideia. Isso é uma consequência da expansão das redes de combustíveis fósseis — sim, o gás, embora seja chamado de natural, é fóssil, poluente e perigoso. Esse gás nunca estaria tão próximo de nós se não o tivéssemos retirado do solo e distribuído por aí, em sistemas de tubulações e bombas que sempre vazam e, por vezes, explodem.


Eu vivi muito tempo no Rio de Janeiro, e era comum o cheiro de gás na entrada dos prédios. Houve um tempo em que eram comuns na cidade até mesmo explosões de bueiros, comprovando sua invisível capacidade de nos colocar em risco de morte, seja pelas explosões, seja pelo subproduto da sua queima: o venenoso monóxido de carbono. Um produto que às vezes mata rápido, por vezes lentamente, mas que é sempre venenoso.


O número de mortes associadas tanto às explosões quanto aos envenenamentos por monóxido de carbono acompanha a expansão das redes de distribuição de gás natural. No Brasil, o maior número de mortes causadas por intoxicação acidental de gases e vapores está no Sudeste, com especial atenção para São Paulo, onde temos sua maior circulação.

Outra questão é a sua capacidade de piorar o cenário climático. Sim, o gás natural, mesmo emitindo menos dióxido de carbono na sua queima quando comparado ao petróleo, já é considerado um vilão. O metano, principal componente do gás natural, é um potente gás de efeito estufa e já é responsável por pelo menos 30% das alterações sentidas até agora na temperatura global, com poder de aquecimento mais de 80 vezes superior ao dióxido de carbono em um horizonte de 20 anos. Em um momento como este, em que discutimos como evitar um cenário mais crítico das mudanças climáticas, muitos ainda relutam em admitir que ele é fóssil e perigoso.

No Brasil, continuamos fomentando, com muitos subsídios e dinheiro público, a expansão das estruturas de gás natural, desde a sua extração até a sua queima nas termelétricas. A ampliação anda a todo vapor. Segundo o Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, haverá um aumento de 95% no volume da produção líquida de gás natural. Isso nos levará a uma sobra na produção de gás. Vale lembrar que hoje já queimamos ou reintroduzimos enormes quantidades de gás natural nos campos do pré-sal. E há muita incerteza; eu me arrisco a dizer que ninguém sabe realmente se este gás fica no subsolo para sempre, nestas chamadas reinjeções. Assim, uma vez que extraímos este gás, não temos muito como voltar atrás. E ele vai parar embaixo das nossas cidades, onde o planejamento urbano pouco reflete sobre estes riscos escondidos.


Bianca Dieile da Silva é Pesquisadora em Saúde Pública – Fiocruz e colaboradora da Rede BrCidades.


Leia o restante na íntegra: https://jornalggn.com.br/artigos/onde-ha-gas-ha-caos-por-bianca-dieile-da-silva/

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